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Aquela mulher e minha vida

Era um domingo muito lindo, se não fosse pelo fato de o calor do sol ser escaldante. Caminhava em busca de algo e ia pensando no que a vida até agora me trouxe.

Precisava chegar a um lugar determinado, com horário determinado. Assim são nossas vidas, as regramos de forma a tentar aproveitar o máximo do tempo que temos.

Mas estava adiantado, por isso ia devagar, observando a realidade à volta. A natureza - que linda! – florida, árvores imponentes, pessoas indo e vindo, umas apressadas, outras mais devagar distraídas, pareciam formigas.

Decido embarcar em um ônibus, o danado deu uma volta extensa, mas como tinha tempo estava tranqüilo. Na viagem, o pensamento refazia minha vida, avaliava minha caminhada, minhas ações. Refazia os momentos inesquecíveis.

Depois de um longo tempo, desembarquei e fui sentar em uma sombra, a espera do horário combinado. Aquela sombra fresquinha novamente me levou a pensar na minha vida, nos meus sonhos, no meu passado, e também no meu futuro. Continuava minha avaliação pessoal, porém, algo estranho começou a me incomodar, um choro? Sim, havia alguém chorando. Mas por quê? Pensei, vou ver. Pensei de novo, não, não vou. É melhor que eu fique aqui sentado, pelo menos não me meto nessa história. Afinal, todo mundo diz assim, eu não vou ser diferente.

Mas, mesmo assim aquele choro me incomodava. Tentei afastar de minha mente e concentrar em outra coisa, mas aquilo me machucava. A dúvida da dor que levava alguém a chorar me mantinha preso a tentar descobrir mesmo sem querer ver o que era. Fiquei algum tempo tentando me afastar. Você poderia dizer “é só sair daí”. Claro, com certeza podia ter saído, mas algo não me deixava, sei lá, uma força estranha, uma mistura de curiosidade com outra coisa que não sei explica o que era.

De repente surge uma mulher com o rosto lavado de lágrimas, numa mão uma garrafa de uísque e na outra o vazio, buscando se agarrar em algo que lhe desse segurança e ao mesmo tempo enxugar as lágrimas. É engraçado, quantos de nós estamos na mesma situação, numa mão agarrados no consumismo, no material, nos vícios. E com a outra mão buscamos dar sentido a nossa vida, dar segurança, equilíbrio.

E aquela mulher, percebendo minha presença foi chegando-se e sentou-se. Pensei “pronto, o que faço agora? Ela está totalmente bêbada”. Mas bêbados todos nós estamos, nem enxergamos nossa vida direito, criamos coisas para suprir nossas supostas necessidades. De tão embriagados que estamos criamos máscaras para esconder quem somos. Caímos nas primeiras dificuldades, andamos a esmo, sem caminho ou direção.

Sentando-se ao meu lado, ficou a observar-me. Parou de chorar e bebeu um gole grande da garrafa. Olhou-me novamente e do nada começou a contar-me sua história: “Eu estou muito mal, estou bebendo demais, já não são 24 horas por dia, são 40. Mas não consigo parar. Meu marido, quer dizer ex-marido me deixou faz 14 anos, quer dizer, eu o deixei. Peguei ele com outra, uma moça. Só fui descobrir que ele estava me traindo depois que os dois sofreram um acidente. Foi muito, mas muito triste mesmo. Dalí para cá minha vida acabou. Ele foi embora, eu fiquei. O que eu tinha gastei tudo, tudo em bebida. Ontem mesmo tentei me matar, me joguei embaixo de um ônibus, estou toda doída. Minha vida não vale mais nada”.

Enquanto ouvia a história de vida daquela mulher e quase chorando junto, pensava no quão estava sendo difícil para ela tudo isso. Tentei me colocar na situação dela, não saberia o que fazer.

E ela continuava contando sua história: “Estou toda quebrada, dói por tudo. E os homens só querem se aproveitar de mim. E você também quer? – perguntou ela. Respondi prontamente que não. Então ela continuou: Obrigado rapaz, muito obrigado, fazia tempo que não achava alguém que me ouvisse e quisesse só o meu bem e não se aproveitar”

Naquele momento passou um carro e alguém a chamou. Ela disse que era um pessoal que iriam pescar e que queriam que ela fosse junto para ser usada. Percebendo minha presença ao lado dela eles se foram. Mais uma vez ela agradeceu por estar ai.

Pediu-me para ajudá-la. Então pedi-lhe que ela largasse a bebida, pois não ia adiantar conversar se em cada palavra bebesse um gole. Rapidamente ela jogou longe aquela garrafa. Perguntei a ela quem era dono da vida dela. Ela me disse que era ela. Então disse-lhe: “mulher, quem está sofrendo é você, e não ele. Não vai adiantar você beber, isso não o trará de volta, você sabe disso. E faz tanto tempo, reconstrua sua vida, busque novos sentidos, volte a sonhar, olhe ao seu redor, tem tanta gente que você foi importante, reconquiste esse carinho, você não merece sofrer assim. Você quer mudar não é mesmo? Então é preciso que você novamente dê sentido a sua vida, busque a oração, a vida nova. Mas não coloque suas bases em coisas que não te sustentam como a bebida e as drogas”.

Conversei mais alguns momentos com ela, dando-lhe força, ouvindo, chorando juto e depois ela se foi, não antes pedindo-lhe para orar por ela.

Depois desse fato, comecei a refletir, como nós, seres humanos buscamos apoio em horas difíceis. Seja na garrafa, ou em outras coisas. Buscamos descanso, alivio. Mas será que está ai nossa resposta para a crise?

Creio sinceramente que não. Precisamos encarar nossos medos e problemas quando eles ainda são pequenos, depois que criamos a bola de neve torna-se difícil parar. Outro ponto é o saber ouvir e deixar que a própria pessoa encontre a resposta para sua pergunta. Auxiliá-la, mas ela é quem deve caminhar com sua vida. Precisamos nos agarrar naquilo que é sólido, deixando os vícios e não largando nossa vida a mercê do vento.

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