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O dia que Deus me questionou!!!

Certo dia, não diferente daqueles dias “normais”, sai de casa pela manhã para ir ao trabalho, parecia que seria apenas mais um dia comum aos de sempre, com mil coisas para fazer. Como é de costume, parecia que chegaria ao fim do dia sem fazer tudo, aliás, sempre quando chegamos ao final do dia, parece que nunca realizamos o que tínhamos planejado, fizemos algumas coisas a mais - outras a menos. Mas, engano meu. Não foi um dia normal, pois em meio aquela correria passou na cabeça uma pergunta: Deus existe? Se existe como ele é? Como que não consigo vê-lo?

Lembrei-me do encontro que tive com uma senhora tempos atrás. Ela dizia-me que acreditava que “Deus era simples. Andava de burrinho, vestia camiseta de algodão e calça de tergal, e, acima de tudo, queria o bem de todos”. A primeira impressão era desqualificar completamente tal expressão. Isso soava como absurdo para um estudante de teologia e seminarista. Tal resposta começou a deixar-me em crise. Eu mesmo, por mais que quisesse, não tinha visto Deus. Por isso a dúvida permanecia: por que não vejo e ela vê?

Comecei a pensar. Não estaria eu sendo um descrente das coisas, ou sei lá o que seria isso, o que sei é que não conseguia mais conjugar Deus em minha vida. Estava quase convencido de que somos nós, os ‘humanos’, que criamos Deus. Mas ao mesmo tempo me perpassava outra ideia. Não sei! Eu estava inquieto, mil perguntas me norteavam, pois será que haveria possibilidade para o Criador do universo ser criado pelo homem? Mas ao mesmo tempo não parecia que seria uma estupidez transformá-lo em humano para assemelhá-lo a nós? Ou não seria um sonho humano achar que Deus existe? Quem sabe uma fuga dos problemas? Ou quem sabe é apenas uma fuga da realidade? Poderia Deus ser um espelho do que o homem não consegue realizar, uma espécie de “Ser do Impossível”? Ou será que Deus existe, mas mesmo sabendo, tento negá-lo para não comprometer-me?

Outra cena me chamou a atenção. Vi um senhor, deitado na grama, com um cachorro ao lado, ambos dormindo. O senhor era mendigo e o cachorro também, ambos mendigavam um pedaço de pão, uma cama confortável, por um sono onde o barulho de carros não incomodasse, e o sol escaldante não queimasse a pele, já curtida pelo tempo.

Fiquei refletindo por um longo tempo. Como será que esse homem vê o mundo, ou melhor, o que é possível ainda ver nesta situação? O que a vida oferece de oportunidade para ele? Qual o seu futuro? Onde encontra motivação para sobreviver? Não seria Deus a única certeza e presença nesta hora? Nesta hora, lembrei-me de uma passagem da Bíblia que diz: “Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus está conosco...” (1Jo 4, 12). Senti que estas palavras diante da cena do mendigo foram rasgando meu coração. Percebi que Deus estava aí e tinha me fisgado. Lembrei-me de outra ocasião no qual Paulo ao fazer uma experiência desconcertante de Jesus expressou: “Fui alcançado por Cristo Jesus”(Filipenses 3, 12). Parecia que as palavras eram para mim, pois não podia mais fugir de Deus.

Agora começava entender quando aquela senhora dizia que Deus era simples. Percebi que estava complicando Deus. Pensava um Deus moral, ético, intelectual, que precisa de orações bem elaboradas, que obrigava a rezar todos os dias. Porém, percebi que um Deus assim torna-se aquilo que queremos que ele seja, um analgésico, antidepressivo, psicólogo, médico, terapeuta, milagreiro.

Entendi então que Deus é simples. Nunca imaginei que esta pobre mulher me revelaria Deus. Mas não qualquer Deus, me fez ver Deus presente no mendigo. Hoje me resta agradecer aquela mulher que passou como Deus em minha vida. Ah! Como é bom ter Deus, um Deus que pode ser chamado de pai, que pode ser ouvido nos galhos das árvores balançando, no cachorro que se torna companheiro do mendigo, no mendigo que é transformado no símbolo de milhões de pessoas pobres, de milhares de moradores de rua. Por isso que pensar Deus é pensar a ‘vida’.

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