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Vestir: necessidade ou desejo?

Era um dia bonito, sol forte, e mais que tudo a ansiedade fazia parte daquele dia. À noite um show de Vitor e Léo nos aguardava. Pela tarde como todos fazem, ou quase todos, fomos comprar roupas, não podíamos ir com roupas usadas, não é mesmo. Escolhe daqui, escolhe dali, saiu um sapato, depois uma calça e enfim uma camiseta de marca Adidas. Meus olhos brilhavam de alegria, fiquei admirado com a compra que acabava de fazer. Contudo, quando me pus a caminhar, a consciência começou a ‘tocar-me’, dei-me conta do que tinha acabado de fazer. Se não bastasse isso, vi na minha frente um menino de uns 6 anos, vendendo jabuticaba, com aparência triste, parecia estar cheio de sonho, mas a realidade nada fácil a sua frente. Pobre criança, sabe-se lá quando poderá viver com um pouco de dignidade, de ter direito a erguer a cabeçinha triste e dar um sorriso, perder a vergonha de estar aí, ou melhor, não precisar estar aí. Agora estava realmente com uma ‘pulga atrás da orelha’, como dizem. Resolvi tentar entender o porquê uma roupa vestida pode influenciar no que somos. E acima de tudo a dúvida me corrompia por dentro, por que eu havia comprado aquela camiseta, não podia ter sido outra?

Perguntava-me: afinal o importante é a roupa que uso ou a dignidade humana? Tratando-se da evangelização: a roupa influencia nossa atuação? Jesus teria uma palavra para nos ajudar neste sentido? Tudo isso realmente agora ‘martelava’ a cabeça. E, principalmente, porque conversávamos bastante sobre a influência das marcas em nossa vida. Mas agora parecia tarde demais tudo estava consumado. O que havia feito era real assim como o menino em minha frente. Não consegui nem sequer falar com ele. Um ônibus veio, embarquei, sentei-me numa poltrona perto da janela e continuei olhando àquele pobre menino que continuava aí sentado na porta de uma loja vendendo jabuticaba. O ônibus foi se afastando, mas o menino continuava me questionando... Não resisti: Chorei. Não consegui nem sequer dizer um “oi”. Não sabia por que, mas aquele menino de olhos negros, cor de jabuticaba, marcou muito.

O menino X roupa

Sabemos que a roupa desde sempre foi símbolo de bem-necessário à sobrevivência. Porém, também, com o desenrolar da história foi caracterizando-se com uma configuração simbólica de poder, de dominação e alienação. Em culturas atuais vemos também que este princípio de que a necessidade deve falar mais alto do que nosso gosto, influenciando em nossos atos, é cada vez mais potente. Grupos se individualizam a partir do que vestem, classes são definidas da mesma maneira e o homem se torna objeto pelo mesmo método.

É claro que ao longo da história novos tipos de roupas foram sendo confeccionados, novos valores foram sendo criados, mas vejo hoje como faz parte à roupa em nosso cotidiano. E isso é símbolo da modernidade ou chamada hoje de pós-modernidade, onde o homem é considerado light por muitos pensadores, vendo-se por marcas, costumes, e uma liberdade somada com o consumismo.

Quando faço essa busca por ver como a moda influencia na vida humana, não busco apenas responder a essa questão. Busco mostrar que a caracterização de nosso ser deve estar acima do que vestimos, que devemos viver a partir de nosso projeto e não das modas que existem. Que o que vestimos não é nada mais do que aparência, não é tudo. E que o conteúdo de nossa caminhada não pode estar baseado em fachadas estéticas.

O respeito e o carinho são estabelecidos pelo que somos não pelo que temos, é isto o que Jesus pede de nós. Que não olhemos para o pobre que se veste mal. Mas que olhemos para o pobre que está carente de amor, de humanização, com os olhos de quem está a servir e não a julgar.

Precisamos restabelecer o valor da vida e deixar o valor da moda em segundo plano. Se você veste Nike, Adidas, Fido Dido, ou qualquer outra marca, não quer dizer que sua opção é Nike, Adidas, Fido Dido, porém para deixar claro é preciso que você valorize seu viver. É preciso novamente e a cada dia renovarmos a ideia de que nossa caracterização como humanos, não deve passar pelos modismos atuais e sim pela necessidade do vestir e pelo anseio de humanizar-se.

Portanto, nossa preocupação maior deve ser com nossa vida, pois assim como os lírios do campo que não trabalham e nem fiam, são completos de beleza e jamais Salomão em toda sua glória se vestiu com um deles (Mt 6,28-29), também nós devemos saber que está na pessoa que somos a beleza do viver e não naquilo que nos reveste como embalagem de produto.

1 comentários:

Ana Seganfreddo disse...

sobre a roupa que voce comprou e a realidade que apareceu em sua frente, do menino pobre vendendo jaboticaba.cleber, o Brasil é rico, mas a riqueza vai para a mão de poucos, precisamos de fato nos organizar para que a riqueza natural do Brasil seja distribuida, mas como?penso que voce pode começar a escrever sobre isso.....e uma vara só é quebrada fácilmente, mas um feixe de vARAS não.que tal formarmos um grupo para discutir isso?Nosso tempo é curto, mas se continuarmos assim, sem apoio real, vai por muito tempo.....O conhecimento sem bondade de nada vale....voce está certo....mas também o Mundo hoje , as instituições estão em crise, todas só querem receber de graça trabalho e dinheiro, entesourar, por isso não creio que as ações isoladas façam diferença.