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A rua

A rua, de um asfalto cinzento, parece não ter vida, parece não simbolizar nada mais do

que um simples caminho. Mas, a rua conta história. A rua faz história. A rua deixa a

história acontecer.

Tem dias que a rua parece vazia. Apenas folhas esvoaçantes são movimentadas de um

lado para outro pela força do vento.

Tem dias que das ruas as folhas saem e muitos pés de chinelo pisam e com gritos,

assovios, sinos, tambores e bandeiras choram contra algo que parece maior que eles.

Maior que eles porque, na maioria das vezes quando esses pés de chinelo estão na rua,

acabam se encontrando com os pés de coturno, pés bem vestidos.

Aí é uma correria, os pés de chinelo correm, alguns caem e são chutados e pisoteados

pelos pés de coturno. Sangue jorra desses caídos manchando a rua. Pobre rua que

impassível vê tudo, mas nada pode fazer

Tem dias que o sol parece bater mais forte e as crianças entregam flores para esses pés

de coturno. Pedindo-lhes para não mais derrubar pés de chinelo, porque o sangue desses

mancha a rua e dói para ela ver tudo assim, imóvel.

Tem dias que essas mesmas crianças jogam bola, felizes na rua, brincam. Esse é o dia

mais feliz da vida da rua, a paz é tudo o que ela quer.

Tem dias que aqueles pés de chinelo encontram não somente pés de coturno, mas

também patas ferradas e pneus. Nesses dias a rua jamais queria existir. Mais gente cai

mais sangue mancha a rua e mais gente deixa de pisar na rua.

Mas toda vez que os pés de chinelo vêm lhes fazer uma visita a fim de contar as

novidades e de mostrar as coisas que estão acontecendo, os pés de coturno chegam para

fazê-los apressar o passo e saírem rápido de perto da rua.

A rua parece pedir para que os pés de chinelo fiquem, mas os pés de coturno insistem

em não deixar.

Em todos esses dias, olhos enormes parecem enxergar tudo, mas esses olhos colocam

nos olhos de outros, coisas que não são verdadeiras. De forma a dizer que os pés de

chinelo não estão certos em lutar contra aquele grandão. Fazendo com que os outros

pensem que os pés de chinelo são vadios, vagabundos, violentos, criminosos. E os pés

de chinelo que tentam gritar contra isso acabam se calando para não perder os pés que

calçam os chinelos.

Tem dias que esses mesmos olhos resolvem por si não ver a rua e nem os passos

que os pés de chinelo dão apressados nela, fingindo que eles são apenas visagens ou

imaginação.

A rua parece cansada, surgem buracos, que logo devem ser tapados, mesmo que de

forma a continuarem sendo vistos. Quase sempre é assim, aquilo que não se resolve

torna a aparecer, assim também é com a rua, os buracos aparecem de novo, e de novo é

tapado. E a dúvida da rua sempre a machuca. Será que um dia os pés de chinelo poderão

visitá-la sem serem expulsos pelos pés de coturno? Até que isso aconteça, quantos

mais deixarão seu sangue na rua? Quantos deixarão de visitar a rua, por não terem mais

pés para porem no chinelo? Será que um dia os pés de chinelo poderão usar sapatos?

Mas bendito é o dia para a rua em que as crianças nela podem brincar, sem medo de que

os pés de coturno às retirem, sem ter que dar flores a eles pedindo paz, acompanhadas

pelos pés de chinelo que agora usam sapatos e não precisam mais gritar para a rua ouvir.

Pois os rumores de pés de coturno que batiam forte, já não batem mais assim, deixam os

pés de chinelo sussurrarem, no ouvido da rua, as suas tristezas que se transformaram em

alegrias.

Esse é o dia que a rua sonha em ver. O dia que a rua espera.